Coordenação de simpósio na ABRALIC: O EXPERIMENTALISMO ESTÉTICO NO CÂNONE LITERÁRIO BRASILEIRO [ONLINE]
- Luciana Molina

- 12 de mai.
- 4 min de leitura
A Abralic (Associação Brasileira de Literatura Comparada) está com inscrições de comunicações abertas. O congresso ocorre entre 9 a 13 de novembro de 2026.
Estou coordenando um simpósio que ocorrerá on-line, sobre experimentação literária no Brasil. Se alguém achar que tem uma proposta de comunicação que converse bem com o simpósio, fica aqui meu convite para se inscrever. Abraço!
O EXPERIMENTALISMO ESTÉTICO NO CÂNONE LITERÁRIO BRASILEIRO [ONLINE]
COORDENADORES:
LUCIANA MOLINA (UNIVERZITA KARLOVA)
ROGÉRIO RUFINO DE OLIVEIRA (SECRETARIA DE EDUCAÇÃO DO ESTADO DO ESPÍRITO SANTO)
RESUMO: Embora o cânone literário brasileiro seja frequentemente associado a uma estética tradicionalista e estável, muitos de seus representantes construíram suas obras a partir da diferença e da ruptura em relação aos modelos importados da Europa. Ao contrário do que por vezes ocorre com outras tradições latino-americanas quando circulam globalmente, a exemplo do realismo fantástico e do surrealismo desenvolvidos na Argentina, na Colômbia e no México, a literatura brasileira parece ser mais reconhecida pela representação social do que pela produção de formas literárias idiossincráticas e originais.
Essa leitura talvez se revele com maior clareza a partir da obra de Machado de Assis, que, conquanto seja comumente associado ao realismo, demarca diferenças importantes em relação ao romance europeu do século XIX, desmanchando seus modelos a partir da ironia e da digressão. Além disso, em Memórias póstumas de Brás Cubas, por exemplo, o autor flerta com o fantástico na figura do defunto-autor e, ainda, fragmenta os capítulos do livro em episódios, situações e pensamentos curtíssimos, além do manuseio de sinais gráficos incomum para narrativas contemporâneas, traços não convencionais para a tradição realista que também influenciou Machado.
A partir da Semana de 1922, a Antropofagia tornou a “inspiração infiel” princípio e modelo do experimentalismo brasileiro: embora bebessem das vanguardas europeias, Oswald e Mário de Andrade pretendiam tomá-las apenas como inspiração para uma estética brasileira, que colocasse para si seus próprios termos, a partir de uma linguagem mais próxima da experiência e da fala cotidianas do país.
Clarice Lispector, por sua vez, é tantas vezes comparada com autores europeus que exploraram o fluxo de consciência e o monólogo interior, e pouco reconhecida por aquilo que, em sua escrita, demarca diferenças em relação a Woolf ou Joyce: o fato de empurrar o texto para zonas limítrofes do poema em prosa e do ensaio, isto é, formas que desestabilizam o enredo a ponto de torná-lo quase inexistente em romances como Água viva, Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres ou no conto “O ovo e a galinha”. Além disso, explora a metaficção irônica e situada histórica e socialmente a partir do narrador pequeno-burguês Rodrigo S.M. em A hora da estrela.
Guimarães Rosa assimilou tópicos relevantes da tradição da literatura europeia, algumas características dos romances de cavalaria, o pacto fáustico e o tema do duplo, sempre de acordo com seu projeto de estilo. Grande sertão: veredas comprova essa mediação crítica, juntamente com a variedade de formas dentro da unidade de Corpo de baile. Seus contos se posicionam com irreverência criativa frente ao conto clássico e até mesmo às experimentações modernistas da narrativa breve, vistas em Joyce e Kafka, lidas em Borges e Cortázar. Fator primordial em Rosa, a representação explora e produz linguisticamente para com isso fazer da linguagem um mundo próprio.
Na poesia, vale lembrar novamente de Mário e Oswald, que não apenas se posicionaram criticamente em relação à tradição, mas projetaram influência futura. Os modernistas são lembrados pelos concretistas, que romperam com o verso, fundiram os códigos verbal e não verbal rumo ao ícone, trouxeram para o Ocidente algo do ideograma oriental e contextualizaram a agência espacial presente já em Mallarmé. Seu antilirismo de verbivocovisualidade estende a variedade da produção brasileira em comparação com a poesia marginal, que fez outro caminho: com produção independente e por vezes artesanal, com coloquialidade, deboche e atribuição de dignidade ao trivial, fez do "relaxo" capricho estilístico. Se se quer falar em poesia e experimentalismo no Brasil, é pertinente comparar Drummond, Cabral e Bandeira, a variedade formal entre eles e aquela que se espalha, diversificada, dentro de suas produções, ainda que em menor medida, no sentido da elasticidade formal, em João Cabral de Melo Neto.
Este simpósio questiona em que medida o experimentalismo no cânone brasileiro levou a literatura mundial para lugares pouco explorados. A intenção é a de jogar outra luz ao cânone mediante o reconhecimento de sua inovação, mas também dar oportunidade para que autores disruptivos e de fortuna crítica limitada sejam mais discutidos e reconhecidos. Além das menções feitas, há interesse por trabalhos sobre Gilka Machado, Carolina Maria de Jesus, Hilda Hilst, Lygia Fagundes Telles, Wilson Bueno, Manoel Carlos Karam, Osman Lins, José Agrippino de Paula, Lúcio Cardoso, Paulo Leminski, Ana Cristina Cesar, Augusto de Campos, Haroldo de Campos, Décio Pignatari, Ferreira Gullar, Régis Bonvicino, a Bossa Nova, a Tropicália, o Cinema Novo (ou exemplos de cinema na fase posterior à retomada) etc. Pretende-se discutir experimentalismo linguístico; dissolução, reformulação e fundação de gêneros e subgêneros literários; hibridismo formal e cultural; valorização da aleatoriedade como elemento construtivo; dentre outros.
Procura-se por inscrições que comparem o experimentalismo literário brasileiro ao europeu, a outras modalidades artísticas como cinema, pintura, música etc., e trabalhos que explorem hipóteses teóricas e comparativas em torno da experimentação do cânone brasileiro em relação com outras tradições nacionais e com a literatura dita “mundial”.



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