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Do sutiã ao buffet, há muito francês no português

           [crônica republicada na Lisboète Magazine, com o título Du sutiã au restaurante, Il y a beacoup de français dans le portugais]

Em fevereiro deste ano comecei a dar aulas de português como língua estrangeira em um departamento de Estudos Românicos em Praga, República Tcheca. Ao longo do processo de aprendizagem, muitos estudantes recorrem ao conhecimento de outras línguas românicas para desenrascar o português. Se a proximidade das línguas ocasionalmente confunde – por exemplo, pelos falsos cognatos – muitas vezes ela é uma mão na roda. Frequentemente, os alunos acessam o italiano, o espanhol e até o portunhol. Esta semana, contudo, chegou uma estudante após uma longa temporada em Paris, o que me deixou pensativa sobre o trânsito e a semelhança entre o português e o francês.

            É certo que, considerando a distância lexical e gramatical do português em relação à língua tcheca, as línguas de origem latina são muito mais próximas. Ao tatear um novo idioma, percebemos as línguas a partir da divisão por famílias. É por isso que a semelhança entre línguas nos deixa com a sensação de conforto de quem acaba de chegar em casa e se livra dos sapatos.

            Além do fato de o português e o francês terem uma origem histórica comum – o latim vulgar, isto é, o latim falado pelo povo – ainda foram incorporadas na língua portuguesa muitas palavras e expressões vindas do francês, que ficaram conhecidas como “galicismos” ou “francesismos”. Embora haja quem acredite que as línguas devam ser defendidas de mudanças e de influências de culturas estrangeiras para manter-se “puras”, a história do mundo nos conta que a riqueza cultural deriva justamente das trocas entre povos.

Podemos considerar ainda o enorme enriquecimento pessoal derivado de falar uma nova língua. Já dizia o grande poeta de Lisboa que tudo vale a pena quando a alma não é pequena. Uma pessoa que se dispõe a aprender mais de uma língua tem alma grande, pode-se dizer, pois suas ideias e sentimentos são expressos de diversas formas através das palavras. Ainda lembrando de Fernando Pessoa, é como se uma língua adicional nos dotasse de uma heteronímia. Já foram inclusive divulgadas pesquisas que atestam mudança de personalidade naqueles que falam mais de uma língua.  

A facilidade de trânsito na União Europeia convida à aventura de expressar-se em outras línguas. Historicamente, o português, em suas diversas variantes, tem adotado expressões e palavras do francês para indicar aquilo que ainda não tem nome. Ou, mais simplesmente, porque determinadas expressões ressoam melhor em francês. Da mesma forma que poetas têm por hábito evitar a cacofonia, isto é, o encontro de sons desagradáveis, adotar uma palavra ou expressão apenas porque são belas é um motivo plenamente legítimo.

            A França é ainda hoje uma grande referência na cultura, nas artes, na moda, na gastronomia. Mais ou menos na época em que a Família Real Portuguesa se instala no Brasil, no início do século XIX, a influência cultural francesa estava no auge. A corte portuguesa e aqueles que lhe eram chegados ostentavam o bom gosto de usar expressões de origem francesa. Os francesismos eram um recurso expressivo quase obrigatório entre as elites cultas. Le dernier cri de la mode. A pesquisadora francesa Pascale Casanova, em sua obra La Langue mondiale: Traduction et domination (2015), dedica um capítulo inteiro a examinar o reinado da língua francesa nas Letras e nas Artes logo após o declínio do latim.

            É por isso que, depois de fazer compras, qualquer falante de português pode notar que adotamos inúmeras palavras do francês. Elas não soam estranhas e tampouco como emprestadas: já foram incorporadas na língua como nossas. Sutiã, manequim, vitrine, etiqueta, buquê etc. Na gastronomia, as expressões são inúmeras. Chef, menu, gourmet, buffet. As técnicas de cozinha e os tipos de comida derivados de palavras francesas são um episódio à parte. No Brasil, ainda hoje, se você se senta em um restaurante (termo também derivado do francês), chama um garçom para lhe atender. Podemos constatar que, para benefício da estudante tcheca vinda de Paris, há muito francês no português. Ou seja, são muitos os motivos para um falante do francês efetivamente se sentir em casa quando usa o português para expressar suas ideias e sentimentos.

 
 
 

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