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Breve comentário sobre incomensurabilidade ontológica

Atualizado: 27 de jan.


Quanto à obra de Eduardo Viveiros de Castro, que tantos nesse debate acham que poderia ser mediadora do impasse teórico: o próprio Viveiros de Castro sempre foi muito crítico do marxismo e, para qualquer leitor com mais lastro, é evidente que ele não demonstra conhecimento profundo dessa tradição (talvez porque simplesmente não ache necessário conhecê-la para criticá-la). As críticas são superficiais e genéricas, para dizer o mínimo. Na questão do Antropoceno mesmo, ele se coloca frontalmente contra a ideia de que o capitalismo seria um problema central. Isso aparece no livro que ele escreveu com a Débora Danowski, “Há mundos por vir”. Algumas pessoas se posicionam no sentido de que seria importante fazer um esforço de união. Mas, em primeiro lugar, não é apenas o marxismo o responsável por dificultar essa aproximação. Quem está do outro lado não parece nem um pouco interessado em conciliar as perspectivas.

 

Um paradoxo epistemológico curioso que decorre da leitura de alguns comentários: ora se diz que há incompatibilidade/incomensurabilidade ontológica (aliás, nada muito novo em relação ao que defendia Lyotard, o pai do pós-modernismo, no final da década de 1970), ora se diz que é óbvio que é possível vislumbrar um horizonte de luta comum, inclusive por uma compatibilização da ideia de materialismo. Compatibilização de vocabulário ontológico não é suficiente por si só para garantir horizonte social e político comum.

 

Outra questão é com o Krenak e as demais ontologias ameríndias. No discurso de Krenak, é evidente que há algum tipo de insatisfação difusa quanto a elementos da sociedade capitalista. No entanto, sendo bem objetiva, se alguém se dispuser a fazer um levantamento bibliográfico dos usos e apropriações do Krenak na universidade, provavelmente teremos como resultado que quase nunca se faz qualquer conexão entre suas elaborações e correntes marxistas e anticapitalistas. Não sei se nas Ciências Sociais é diferente. Mas isso é o que percebo na Filosofia e em Letras – as áreas pelas quais tenho mais trânsito. Ou seja, embora se reivindique essa união, a maior parte das apropriações de Krenak não a fazem e talvez inclusive a recusem. Mesmo que a compatibilização seja possível, ela simplesmente não tem sido feita.

 

Jean-François Lyotard, em A Condição Pós-Moderna, critica o marxismo e o Iluminismo por conta das metanarrativas emancipatórias, pois as compreende como “opressoras”. Ele propõe a incomensurabilidade dos microrrelatos e frequentemente opõe saberes ocidentais (“ciência”) e saberes de comunidades tradicionais como incomensuráveis e incompatíveis. À luz disso tudo, e de maneira muito similar ao que faz Eduardo Viveiros de Castro, não há sequer sentido buscar algum tipo de emancipação do capitalismo.

 

Volto à contribuição teórica de Gayatri Spivak, autora pós-colonial, e especificamente seu livro “Pode o subalterno falar?”. Embora seja derrideana, ela retorna à ideia de ideologia em Marx para, dentre outras coisas, fazer algumas das melhores críticas que já vi a Foucault e Deleuze (esse último, aliás, é a base do pensamento de Viveiros de Castro).

 

Spivak reforça que Foucault e Deleuze falam de maneira vaga de “micropolítica” e resistência enquanto não oferecem condições suficientes para pensar a divisão internacional do trabalho e resistir a ela – exatamente o que vejo na elaboração teórica de Viveiros de Castro. Ela também vai insistir numa outra encruzilhada colocada por eles, que é a ideia de que os subalternos conseguiriam por si mesmos entender como são subjugados. A argumentação é longa e intrincada, e não a reconstruirei toda aqui, mas ela insiste que o colonizador educa e forma para sua própria ideologia. Nesse sentido, seria no mínimo ingênuo supor que o subalterno espontaneamente compreenda sua subjugação. Por isso mesmo, seria necessário voltar à ideia de “ideologia” e à importância de uma educação contra-hegemônica.

 

Não me parece muito convincente a percepção de que resistências contra a ordem mundial sejam engendradas de maneira espontânea por essas ontologias outras. E, com isso, faz-se necessário um vocabulário específico para tratar desse problema.

 
 
 

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