Um breve estudo de caso do ensaio de entretenimento: "A arte do ensaio impessoal", de Zadie Smith (publicado no Brasil pela 451)
- Luciana Molina

- 3 de fev.
- 2 min de leitura
Atualizado: 4 de fev.
Esse ensaio da Zadie Smith até que não é de todo ruim, mas vamos analisá-lo com mais detalhe.
Antes de mais nada, seria importante perguntar: que aspectos apresentam qualidade? Será que não são justamente aqueles que a tornam mensageira do óbvio?
Fiz uma lista de checagem do ensaio de entretenimento:
✅ autora conhecida e com capital simbólico;
✅ fluência jornalística / jornalismo cultural “sofisticado”;
✅ nenhuma proposição nova sobre o mundo / nenhuma contribuição epistemológica;
✅ opiniões muito difundidas sobre ensaio e progressismo (o texto funciona como uma carta de princípios / como prova de opinião);
✅ alguns casos pessoais (A meu ver, completamente genéricos. Aposto que não terei lembrança alguma em três anos.);
✅ verniz culto: referências superficiais a feminismo, existencialismo, humanismo etc.;
✅ defesa genérica da solidariedade como princípio;
✅ o ensaio parte do consenso progressista e volta ao consenso progressista / não há nada sendo disputado / não há nenhum aspecto do consenso sendo questionado;
✅ crítica genérica à meritocracia no mundo anglófono.
O tipo de afirmativa trivial que encontramos no texto: a prova de seleção beneficia os alunos que foram treinados para ela. Se isso não dá déjà vu em você, é porque você provavelmente lê pouco sobre o assunto e frequenta ambientes em que isso não é sequer posto como questão.
A crítica à meritocracia que ela faz é suficientemente genérica para que uma certa classe média de esquerda possa se sentir com a consciência expiada.
Mas quem quer de fato saber por que a meritocracia não existe?
Por favor, não incomode nossos nobres sentimentos de solidariedade com tentativas de enxergar melhor o problema ou, pior ainda!, propor soluções.
Também me parece particularmente instigante que o público da 451 possa ter interesse em uma escritora anglófona falando que a meritocracia não funciona na Inglaterra.
Mas, sei lá, e se alguém tivesse essa ideia louca de começar a discutir o Brasil?
Melhor não. Porque aí uma classe média que sempre se valeu de privilégios de classe (e que provavelmente é público relevante da 451) terá que começar a se perguntar se o que ela conseguiu na vida foi mérito mesmo ou se é simplesmente o resultado de uma concorrência desleal em uma sociedade profundamente desigual como a brasileira.



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