Das ironias
- Luciana Molina

- 24 de jan.
- 2 min de leitura
Escrevo ironias por gosto e vício. Amo gente irônica. Meus melhores amigos são irônicos. Uma das minhas maiores escolas de escrita foram os poemas do modernismo brasileiro – encharcados de ironia. Gosto da ironia de Oscar Wilde e Machado de Assis.
Mas cada vez menos gente – inclusive dentre aquelas com formação universitária e pós-graduação – entende ironia, mesmo quando ela é sinalizada com escolha lexical e até, quem diria!, emoji. A maioria provavelmente teria dificuldade de entender uma página de Machado sem um manual do lado.
É mesmo assombroso o declínio da capacidade de interpretar textos – só superada pelo declínio na produção de bons textos.
O declínio da ironia como construção formal tem relação com seu uso na internet, que contamina inclusive as produções textuais mais elaboradas, a exemplo da literatura.
O humor dos memes. O humor do Twitter (atual X). O humor da lacração.
Em um conto escrito nos últimos anos por um brasileiro, encontramos um comentário jocoso a partir da barba de Karl Marx. Uma piada fácil e trivial, que já vimos tantas vezes, inclusive em formato de meme. O problema, obviamente, não é a troça com Marx, e sim a previsibilidade do gesto e o clichê, que vulgarizam o texto e o tornam menos singular. E isso logo com ele, um dos maiores ironistas da história...
Nas palavras de Pound, literatura é novidade que permanece novidade. Literatura com piada que é velha já no seu próprio tempo dificilmente terá vida longa.
A ironia de internet é, em geral, rasteira e precária. Quase sempre envolve fulanismo, isto é, ataque a pessoas específicas. Para piorar, são comentários frequentemente descolados da realidade. Como a intenção é acima de tudo alvejar alguém, nem sequer conferem se a ironia é capaz de descrever adequadamente algum aspecto do mundo real.
É fundamental para um ironista ancorar-se em observação efetiva da realidade. Machado, Wilde e tantos outros excelentes estilistas constroem ironia sutil e sofisticada para criticar hábitos e visões de mundo arraigados.
Há ironia que é somente deboche. Em oposição a isso, há ironia que é revelação. Enquanto a primeira cresce exponencialmente em um mundo fascistizado, a segunda é cada vez mais desvalorizada em um mundo igualmente caracterizado por incompetência textual crescente.




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