Destinatário não encontrado
- Luciana Molina

- 29 de jan.
- 1 min de leitura
Desta vez as cartas de amor
não são ridículas.
As cartas de amor nunca chegam
a seu destino.
Você declama, digamos,
o Soneto 116, de Shakespeare.
Mas seu amor não percebe
que você declama especificamente para ela,
e não simplesmente para a horda
de curiosos nas redes.
Ela supõe que você está a fazer
apenas uma performance pública
– e não se declarando.
O poema falha em se expressar
o amor falha em se expressar
também o eu e a linguagem
falham em se expressar.
A única pessoa a quem valeria
destinar o poema
– e a quem ele fora de fato destinado –
é incapaz de ler o poema,
não porque não seja capaz de vê-lo recitar,
não porque não saiba a língua
em que o poema foi escrito e, então,
recitado.
Não porque não tenha sensibilidade literária
para estremecer junto ao poema,
mas porque nunca soube
que o poema naquele instante
era recitado para ela
e somente para ela.



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