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Desta vez as cartas de amor

não são ridículas.

As cartas de amor nunca chegam

a seu destino.

Você declama, digamos,

o Soneto 116, de Shakespeare.

Mas seu amor não percebe

que você declama especificamente para ela,

e não simplesmente para a horda

de curiosos nas redes.

Ela supõe que você está a fazer

apenas uma performance pública

 –  e não se declarando.

O poema falha em se expressar

o amor falha em se expressar

também o eu e a linguagem

falham em se expressar.

A única pessoa a quem valeria

destinar o poema

– e a quem ele fora de fato destinado –

é incapaz de ler o poema,

não porque não seja capaz de vê-lo recitar,

não porque não saiba a língua

em que o poema foi escrito e, então,

recitado.

Não porque não tenha sensibilidade literária

para estremecer junto ao poema,

mas porque nunca soube

que o poema naquele instante

era recitado para ela

e somente para ela.

 
 
 

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