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Ame ou deixe: relendo “A ciência como vocação” (1919), de Max Weber

 

Em algum momento das últimas semanas reli um ensaio muito conhecido de Max Weber chamado “A ciência como vocação”. Faz parte de um itinerário de pesquisa que tracei para escrever outro texto. Mas acabou sendo útil para pensar essa noção que parece estar em declínio atualmente: a ciência entendida como vocação laboral.

       Nesse ensaio, Weber descreve como na academia não são raros os casos de pessoas muito talentosas que não conseguem postos. Ele explica que é comum que isso ocorra porque há um sistema de indicação na universidade. Orientadores frequentemente passam o bastão para algum orientando. Aqui, estou apenas parafraseando Weber. Se essa descrição ainda faz sentido no mundo de hoje, deixo para o leitor julgar. Não é do meu interesse discutir isso no momento.

Diante de críticas que já fiz à estrutura da universidade, muitas pessoas “contra-argumentam” perguntando: se a universidade tem tantos problemas, por que você quer entrar?

Trata-se de um argumento falacioso, que supõe que só é possível querer trabalhar na universidade se você concorda integralmente com o modo em que ela se encontra hoje. No caso do Brasil, quando tratamos da universidade pública, podemos considerar ainda que é uma instituição mantida pelo dinheiro do contribuinte. Ou seja, qualquer cidadão brasileiro teria plena legitimidade para criticar o modo pelo qual seu dinheiro é empregado. É curioso que muitos que se valem da tal “autonomia universitária” esqueçam por completo que prestam um serviço público, e que esse deveria ser do interesse da sociedade brasileira.

Aceitar plenamente alguma coisa sem qualquer possibilidade de questionamento é algo que me parece mais alinhado a espírito dogmático que a espírito científico. Mas talvez seja mesmo essa a compreensão de academia e de pesquisa que embasa o falso dilema apresentado.

Há algo, no entanto, que avalio como ainda mais perturbador quando a pessoa faz uso dessa falácia para questionar decisões de foro íntimo, e é justamente o fato de ela desconsiderar por completo a noção de ciência como vocação.

Embora seja possível seguir pesquisando fora da estrutura universitária, é evidente, que estar dentro dela favorece o acesso a uma série de recursos. Mas o principal, pelo menos para aqueles que não nasceram em berço de ouro, continua a ser o seguinte: como ter um emprego que pague as contas e ao mesmo tempo conseguir conciliá-lo com o trabalho de pesquisador?

Pessoalmente, e aqui insiro um comentário confessadamente subjetivo, a sensação que eu tenho, quando me apresentam esse falso dilema dirigido às minhas escolhas pessoais, é de que, como se não bastasse todo o rol de percalços, esforços vãos e até mesmo humilhações que passamos ao longo da carreira (e, no meu caso, garanto que foram muitos), a pessoa ainda quer usurpar a autocompreensão do que seria nossa vocação.

Afinal, tudo passa a ser subsumido nessa falsa dicotomia, segundo a qual você precisa admitir acordo integral quanto ao que ocorre na universidade – por mais que ela esteja continuamente mudando, e nem sempre para melhor – ou abdicar de vez desse ambiente de trabalho e, dessa forma, também abdicar da sua vocação como cientista.  

 
 
 

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