O travessão e o ponto e vírgula
- Luciana Molina

- há 6 horas
- 2 min de leitura
Embora a comunidade internacional tenha identificado o uso do travessão como marca do Chat GPT, podemos indicar outra característica de escrita de IA sensível para quem lê e escreve em português: o uso mais frequente de ponto e vírgula.
O Chat GPT é treinado sobretudo a partir de textos em língua inglesa, o que explicaria essa supervalorização.
O ponto e vírgula é previsto pela gramática do português, mas seus usos não coincidem inteiramente com os da língua inglesa.
No inglês, é mais comum haver ponto e vírgula em construções do seguinte tipo:
She left; I stayed home.
No português, para situações parecidas, tenderíamos a usar ponto, vírgula e/ou até mesmo uma conjunção. Sobretudo quando há duas orações independentes curtas e, portanto, não há necessidade de organizar complexidade, o uso é artificial, e parece mais preocupado em atender uma formalidade estrangeira que em construir ritmo no português.
Textos jornalísticos e acadêmicos no debate público brasileiro já carregam traços de importação de seu uso na língua inglesa (e, em menor grau, talvez do alemão). Assim, a anglicização do português acadêmico vai de vento em popa.
A estratégia alonga o tamanho do período e talvez passe a impressão de mais seriedade e densidade – mesmo quando não há uma construção particularmente inspirada. Supor que o ponto e vírgula é necessário para dar continuidade é um argumento fraco porque a utilização em um mesmo parágrafo já garante continuidade de sentido. Ou seja, no melhor caso, é redundante. No pior caso, pode tornar semelhantes ideias distintas – o que me parece prejudicial em particular na escrita teórica e conceitual.
Trata-se de uma microdecisão estilística ao sabor do autor. No entanto, no meu ponto de vista, o texto carrega sotaque e cacoete de quem lê mais papers que boa prosa em português brasileiro.
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Alguns podem alegar que Machado usava bastante. Machado, um autor do século XIX…
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Recentemente, terminei de ler um volume de ensaios do português Eduardo Lourenço. Há ensaios inteiros sem nenhum ponto e vírgula. Em contrapartida, li um livro traduzido da escritora italiana Natalia Ginzburg. Comparando o original e a tradução que saiu no Brasil em 2020, percebe-se que o tradutor coloca ponto e vírgula inclusive onde não há no original…
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Também acho o travessão mais defensável que o uso artificial do ponto e vírgula, pois está mais sedimentado no português contemporâneo e, na maior parte dos casos, produz um efeito mais condizente e útil ao discurso de quem resolve utilizá-lo.
O travessão, afinal, produz sensação de comentário à parte. O ponto e vírgula é um tempo intermediário entre o ponto e a vírgula (e, portanto, imensurável em termos concretos) e produz continuidade onde talvez devesse existir separação de ideias e ênfase retórica.
Observe a diferença:
Mariana vinha aos sábados; João, às sextas.
Mariana vinha aos sábados. João, às sextas.
Diferença sutil? O diabo e o escritor moram nos detalhes.



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