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O travessão e o ponto e vírgula

Embora a comunidade internacional tenha identificado o uso do travessão como marca do Chat GPT,  podemos indicar outra característica de escrita de IA sensível para quem lê e escreve em português: o uso mais frequente de ponto e vírgula.


O Chat GPT é treinado sobretudo a partir de textos em língua inglesa, o que explicaria essa supervalorização.


O ponto e vírgula é previsto pela gramática do português, mas seus usos não coincidem inteiramente com os da língua inglesa.


No inglês, é mais comum haver ponto e vírgula em construções do seguinte tipo:


She left; I stayed home.


No português, para situações parecidas, tenderíamos a usar ponto, vírgula e/ou até mesmo uma conjunção. Sobretudo quando há duas orações independentes curtas e, portanto, não há necessidade de organizar complexidade, o uso é artificial, e parece mais preocupado em atender uma formalidade estrangeira que em construir ritmo no português.


Textos jornalísticos e acadêmicos no debate público brasileiro já carregam traços  de importação de seu uso na língua inglesa (e, em menor grau, talvez do alemão). Assim, a anglicização do português acadêmico vai de vento em popa.


A estratégia alonga o tamanho do período e talvez passe a impressão de mais seriedade e densidade – mesmo quando não há uma construção particularmente inspirada. Supor que o ponto e vírgula é necessário para dar continuidade é um argumento fraco porque a utilização em um mesmo parágrafo já garante continuidade de sentido. Ou seja, no melhor caso, é redundante. No pior caso, pode tornar semelhantes ideias distintas  – o que me parece prejudicial em particular na escrita teórica e conceitual.


Trata-se de uma microdecisão estilística ao sabor do autor. No entanto, no meu ponto de vista, o texto carrega sotaque e cacoete de quem lê mais papers que boa prosa em português brasileiro.


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Alguns podem alegar que Machado usava bastante. Machado, um autor do século XIX…


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Recentemente, terminei de ler um volume de ensaios do português Eduardo Lourenço. Há ensaios inteiros sem nenhum ponto e vírgula. Em contrapartida, li um livro traduzido da escritora italiana Natalia Ginzburg. Comparando o original e a tradução que saiu no Brasil em 2020, percebe-se que o tradutor coloca ponto e vírgula inclusive onde não há no original…


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Também acho o travessão mais defensável que o uso artificial do ponto e vírgula, pois está mais sedimentado no português contemporâneo e, na maior parte dos casos, produz um efeito mais condizente e útil ao discurso de quem resolve utilizá-lo.


O travessão, afinal, produz sensação de comentário à parte. O ponto e vírgula é um tempo intermediário entre o ponto e a vírgula  (e, portanto, imensurável em termos concretos) e produz continuidade onde talvez devesse existir separação de ideias e ênfase retórica.


Observe a diferença:


Mariana vinha aos sábados; João, às sextas.


Mariana vinha aos sábados. João, às sextas.


Diferença sutil? O diabo e o escritor moram nos detalhes.

 
 
 

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